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17/12/2011

Dona Leonilda!!!!

Aos apitos, correndo, ela vinha nos impedir de passar entre os corredores, cumprindo seu trabalho como vem fazendo há mais de trinta anos, no memso terminal.
Quando nos viu de perto, soltou uma gargalhada imensa e nos deu um abraço daqueles que traz todo carinho e afeto de uma mãe, vó, trabalhadora, mulher...
Não parou de rir e de nos abraçar, até chegarmos ao vestiário, onde pediu: Quero uma foto! Quero uma foto!

Aí está Leonilda.. E será levada pessoalmente ao Terminal PArque Dom Pedro, como lembrança daquele momento tão especial..
Pessoas que fazem a gente ver que tem sentido fazer o que a gente faz.. Que tem troca no que a gente propõe.. Que tem riso, tem festa e tem cor!

Esse abraço fica na gente, junto com tantos abraços que nos motivam a continuar.


Parlendas na SPTRANS



Sobre o projeto de Palhaço nos Terminais de Ônibus:

É certo que grande parte dos usuários, dependentes do transporte público da cidade de São Paulo, são de classe baixa e moram em regiões periféricas ao centro da cidade. Os primeiros ônibus, ainda de madrugada, já saem com grande quantidade de gente, em trajetos de quase duas horas, feitos ao menos duas vezes por dia.
Portanto, a maioria dos usuários depende do transporte para seu sutento e trabalho e passa quase 1/6 do dia dentro da condução. Fora isso, as filas são grandes, é raro ter assentos para todos pois as conduções estão quase sempre lotadas, é comum o trânsito aumentar muito o tempo das viagens e outras mil dificuldades cotidianas experenciadas pelos proletários paulistas.
Alguns problemas constatados anteriormente, junto com a equipe da SPTRANS, foram: desrespeito ao assento preferencial; mau-humor, a impaciência nas filas, lixo pelas janelas; descaso dos funcionários; desrespeito com os funcionários; assédio sexual...
Muitas vezes a busca pela sobrevivência, o cansaço do dia a dia, o stress do trabalho-vida-família, a pressa e a vontade de chegar em casa deixam a generosidade e o respeito por si e pelo o outro em segundo plano. Difícil recuperar este senso de coletividade e de generosidade com poucas ações ou mesmo ações descontinuadas, que não insiram o usuário em alguma lógica de pensamento e de atitude.
O Parlendas apresentou há três anos um projeto para SPTRANS que tentasse interferir no cotidiano dos usuários, provocando reflexões sobre esse espaço.
A concepção originária de educar vem do latim "educare": endireitar, porém contrariando essa idéia civilizatória de endireitar alguém para caber em algo, mais do que educar ou conscientizar, pensamos em provocar; em gerar fraturas e interseções no pensamento e na atitude das pessoas, para que reflitam sobre o seu posicionamento no mundo. Além de tudo e acima de tudo, divertir, pois o palhaço e o humor estão para o riso e a crítica numa relação direta. Divertir e relaxar também, depois de exaustivos trajetos e dias, é uma forma de mostrar outras visões de mundo e de modos de ser.
O Grupo Teatral Parlendas utilizou-se de seus instrumentos de trabalho: (a linguagem cômica e o palhaço) para causar o riso em quem passou o dia de cara fechada. Fizemos “campanhas” como: a massagem coletiva, que ocasiona o toque; as novas estratégias de carregar sacolas (com perna de pau ou segunda altura); a campanha 2 em 1 para pagar meia passagem; a godofreda (barata) que é a melhor companheira da viagem; a inspeção do desfedorante junto com a campanha: Abaixa o braço!; a campanha: Senta no colo, que cabe mais gente!; a dica: "Relaxa que vem "bocetada" na cara".. - É Bolsada, Tilápia!.. - Ah sim! Foi o que eu disse, bocetada!; o disk Dilma e disk Kassaba; etc

Sabemos que o problema de transportes não é algo isolado, mas fator de um sistema capitalista que só sobrevive às custas da exploração do trabalhador. O Parlendas, buscando a troca com estes trabalhadores, vê nos terminais de ônibus, grande espaço de interlocução e potência.

Agenda de Dezembro:


06/12/2011

O Grupo Teatral Parlendas iniciou a montagem do seu mais novo trabalho, um espetáculo de rua que narrará as andanças trajetórias feitas pelo grupo no projeto Histórias de Retalhos em 2010, pelo prêmio FUNARTE Circulação Literária. Desta vez, contemplados com o Edital PROAC nº 01/2011 Concurso de apoio a projetos de produção de espetáculo inédito de teatro no Estado de São Paulo, no valor de 50.000,00, pelo período de oito meses.
Temos o imenso prazer e alegria de compartilhar o processo com os parceiros: Luciano Carvalho (Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes) na direção e o Mestre Tião Carvalho (Morro do Querosene) na provocação e treinamento corporal.
O espetáculo que terá estréia em abril de 2012, circulará por quilombos, penitenciárias, assentamentos do MST e ruas e praças do interior do Estado de São Paulo, junto com o documentário "Narrativas de Retalhos" que em breve terá seu lançamento na cidade de São Paulo e no interior paulista.

Abaixo, orçamento do projeto contemplado:
(o item registro áudio visual era para o Elton, que foi conosco como cinegrafista, mas que agora está no núcleo de criação, compondo conosco o espetáculo, portanto não teremos registro de todo processo, mas sim mais um artista pensando junto toda brincadeira)

15/11/2011

Itirapina - Oficina de Teatro Popular

Quatro dias de oficina em Itirapina. Praça grande, pessoas queridas..
O Parlendas abrindo caminhos por aí.. Obrigada a cidade pela recepção..
e a família toda do Saulo pela comida, carinho e hospitalidade!


26/10/2011

Semana da America Latina em São Carlos na UFSCar


Delícia de dia... De manhã e a tarde oficinas de teatro com Maria Gabriela e Natália, com os estudantes da Ufscar.. Agora a noite, as 19h30, lançamento do Documentário: Histórias de Retalhos - 80 dias parlembembando por aí.. (edição e produção de Elton Maioli), com apresentações de música indígena e presença de vários amigos na conversa após exibição.

Viva o Teatro de Rua.. As trocas por esse mundão..

20/10/2011

Parlendas em São Carlos

07/10/2011

PARLENDAS EM ITIRAPINA!!!

Dessa vez a roda será formada em Itirapina -S.P.!

Uma parceria entre as Oficinas Culturais Sergio Buarque de Holanda - São Carlos e a Prefeitura de Itirapina

A oficina tem por objetivo trazer reflexão e experimentação sobre as diversas técnicas que permeiam o fazer teatral, principalmente as manifestações cênicas para locais públicos, como o teatro de rua, passando por meio da oralidade e de uma construção prática e coletiva, alguns expedientes do teatro épico, cômico e das culturas tradicionais, através de jogos e brincadeiras.

Público: a partir de 13 anos.

Espaço Cultural Casa Guariento
Rua 5, 195 - Centro
Itirapina, Brazil

Data: 08/10 - 09/10 – 15/10 -16/10
... Sábados: 10h às 12:30h – 13:30h às 17h
Domingos: 10h àsh 12 às 14h às 16h

Datas e demais informações:
(19) 3575-1852 - com Saulo
http://www.oficinasculturais.org.br/programacao/regionais-2-semestre-2011/sergio-buarque.php

01/10/2011

UM BRINDE!!!!

O Grupo Teatral Parlendas foi contemplado pelo PROAC Montagem e inicia seu trabalho que estréia em março de 2012..
Direção: Luciano Carvalho (Grupo Dolores Boca Aberta)
Provocação: Tião Carvalho (Morro do Querosene)

01/07/2011

Agenda do Grupo

O Grupo Teatral Parlendas está ensaiando aos finais de semana, como sem verbas, na casa de um ou de outro, em parques e praças por aí..

Aguardamos ansiosos a saída do PROAC montagem que possibilitará a entrada de Luciano Carvalho e Tião Carvalho neste novo trabalho que estamos preparando.

Para o segundo semestre temos já algumas apresentações planejadas.. mas sem datas! em breve postamos aqui.

viva!

28/02/2011

Eu vi

Um casal de pássaros de peito branco e cabeça crispada, vermelha. Uma iguana verde esmeralda nos galhos altos da árvore baixa. Um casal de tucanos sobrevoando acima do caminhão em movimento. Milhares de canindés, toneladas de sanhassus. Serpente muito fina de um verde obscuro. Borboleta grande azul-lamparina voando esbaforida. Besouro verde e doirado. Sapo grande evacuando na sala. Filhote siamês de pelo macio furta-creme e aurea de estrela. Cachorrinho agonizando em meus pesadelos. Um porco tristonho. Rio cor de chá e cadela "Bianca" que parecia gente. Uma Preta Velha. Um lôro Eufêmero. Uma rosa ao sol e sua sombra. Uma Índia cantando cantiga paraguaia...Obrigado, Obrigado, Obrigado.
Eric D'Ávila

24/02/2011

Veredas de Sombras
A Tarcísio Gurgel

Milhares de vidas
São hoje ceifadas
Em faixas de terras
Cobertas de asfalto

Veredas de sombras
Que dão sobressaltos,
Arenas estreitas
De luto banhadas;

Veladas por cruzes
Enfileiradas,
Deixando um sorriso
Do medo no ar.

Pára-brisas quebrados
No chão a rolar,
Compondo, entre ferro,
Metal e poeira...

Um quadro de guerra, sem causa e bandeira
Que a mão do progresso inventou de pintar.

-Antônio Francisco -


Quanta disputa por terra aí pelo Brasil, na floresta, no quilombo, nas aldeias indígenas, nas vilas de Serra do Mel, nos pedaços de Natal sendo comprado pelos europeus, nas plantações de soja do sul. Que contradição abrir uma estrada, via de mão dupla para o "desenvolvimento" do Brasil europeu exótico...e que também traz acesso a água, energia elétrica, transporte...
O sistema prevê e conta com a situação da Valentina que não tem luz mas podia ter, das vilas de Serra do Mel que chegam a ficar uns três meses sem água mas podiam não ficar, com a monocultura agressiva da soja transgênica...
pegou da terra? o que não mata...é lucro.

Pedro Bacellar



P.S: Depois de meses, finalmente a malha foi lavada!

17/02/2011

Boneca de abóbora

Era uma vez um sapo que certo dia beijou uma abóbora. A abóbora despertou de seu sono leguminal e se transformou lentamente em uma boneca. A boneca beijou o sapo de volta e o sapo se transformou em boto-cor-de-rosa. O Boto ofereceu à ela além de seu galanteio, um lindo cravo vermelho e a boneca botou aquele cheiro de morte em seu cabelo dourado de milho, no cantinho perto da orelha. A boneca beijou o sapo e o sapo se trasnformou em Príncipe, mas só que era um Príncipe analfabeto. Analfabeto e acoolatra. O Alcoolatra estuprou brutalmente a boneca sublime que engravidou e fez morrer sua infância. A mulher em que se transformou a boneca se chamou Maria, que desde então amanhece com a vassoura na mão, cuida da roça e de quinze filhos, inclusive de mim.
Eric D'Ávila

15/02/2011

Estava pensando sobre esse post e se faria um agradecimento geral a todos ou citaria nomes, mesmo correndo o risco de esquecer alguns...

De qualquer forma, o principal é que quero deixar as energias mais queridas a todos que nos hospedaram e nos ajudaram até agora, possibilitando o desenvolvimento e continuidade do projeto "História de retalhos".

E agora, focando nas pessoas que nos acolheram em suas casas, quero e queremos agradecer ao Judson pelo apoio e ao Padre Chagas da Igreja São Sebastião que nos hospedou e a Rogéria que trabalhava lá de manhã, em Xapuri. A Maria de Fátima que nos convidou para passar o natal na sua casa lá na Sibéria(bairro de xapuri), com um delicioso almoço

Ao Nilson Mendes e a Naza que nos hospedaram no seringal Cachoeira. Ao grupo teatral Vivarte de Rio Branco, onde passamos o ano novo e fizemos boas vivências!
A Dona Inês e Fernanda do grupo Tibanaré em Cuiabá. A Teresinha, Nezinho e Luis que nos hospedaram no quilombo Mata Cavalo de Cima no Mato Grosso. Ao Valdenilson, Vanil e Luciano da aldeia Umutina e a Cacique Creusa. Ao Raimsom e Gabriel da república de Barra do Bugres, que nos salvaram pelo menos 3 vezes.

Ao Ricardo Martins, grande amigo, que nos recebeu em Jenipabu; ao Nil, Gena, Ananda e a toda trupe do Circo Grock que nos receberam em suas casas (lona)! ^^ Ao Junio Santos que nos hospedeu em suas casas para que pudéssemos ir ao escambo. A Milane pelo apoio da prefeitura e ao Francisco e Chagas que nos possibilitaram ficar em Serra do Mel e desenvolver nosso trabalho nas vilas Alagoas, Amazonas, Goias e Espirito Santo. Ao Márcio Silveira do grupo Manjericão de POA que nos recebeu com muito carinho. Ao Jessé, pela noite incrível e delicioso café! E agora ao Cristiano, ao Pereira, a Zuleica, a Landa, ao Guga e a Mayana que estão nos hospedando aqui em Tupanciretã,com muita hospitalidade e muita energia boa! e está sendo incrível! Assim como em todos esses lugares que ficamos.

Espero não ter esquecido de ninguém. Todos nos receberam em suas casas com muito respeito e carinho! E fora isso fica para outro post os outros parceiros importantíssimos que não nos hospedaram mas nos ajudaram em tantas outras coisas nesta viagem!!!

Agradeço imensamente e vamos que vamos!

Pedro Bacellar em nome de todo grupo.

14/02/2011

Esquecendo muitas das descrições da famosa Ciência...Tirando os véus e os tantos óculos que permeavam os olhos a tanto tempo...

E...Olhando...
Vendo...
Observando o Brasil...
E olhando...Olhando...

É isso! É certeza que o céu do nordeste não é o mesmo do sul, nem igual o do norte.
O sol tem tamanhos diferentes dependendo do estado e as estrelas costumam estar fixas em apenas algumas cidades...

É fato! É fato que os olhares que se dançam no nordeste, não são como os que marcham no sul...

Das palavras,
tenho guardado poucas,
as imagens me aparecem de repente,
em câmera lenta, quando fecho os olhos.
Sons embalam as tantas fotografias gravadas em mente.
O gesto agora tem som!

Enxada - cavalo - muralhas.
Enxada - cavalo -muralhas.
Enxada - cavalo - muralhas.
Enxada - cavalo muralhas...

Existe o som da muralha, da enxada e as comidas, agora possuem uma trilha sonora, assim como os sorrisos e os olhares que vêem me marcando...

È certeza que existem tambores invisíveis impregnados nas mãos das mulheres que conheci.

As cores das vilas do nordeste são diferentes das cores das ruas aqui do Sul...e o Mato Grosso era verde, marrom e negro.

Tem histórias que não sei contar com início, meio e fim... só é possível descrever as cores que nasciam no meio das palavras e com o corpo tocar o ritmo do batuque que os tambores dessa gente faz.





Maria Gabriela
com frio e o nariz entupido, em TupanCiretã, no sul.

08/02/2011

Apagão no Nordeste

Uma urgência de expulsão em minhas vísceras interrompeu o sono atormentado. Ao longe, gatos urravam de dor e prazer. Eu dormia em uma casa estranha e não podia discernir onde me encontrava. Meus dedos nervosos buscaram o interruptor que não poderia interromper minha angústia. Pensei que era mais uma projeção do meu espírito, dessas vezes quando tento acender a luz, sem ter carne para isso. Meu Deus onde estou? Isso não é sonho porque meu ventre dói. Os gatos se aproximam, já chegaram no quintal. Ouço seus uivos demoníacos e sinto medo. Esqueço o medo e tateando a parede consigo chegar até a rua. A cidade sobre a serra está apagada, o nordeste brasileiro todo está. As estrelas estão sem forças. Consigo com meus demônios espantar os gatos e minhas vísceras, em guerra, tentam espantar alguma bactéria ruim. Volto para dentro da casa escura e tateio paredes infinitas, temendo pisar em corpos quentes e adormecidos, ou cortar o rosto com objetos da escuridão. Que janelas são essas? Onde está a porta que procuro? Oh! Água impura do suco de Cajarana! E porque vísceras tão intolerantes, meu Deus? Suor. Os gatos voltam. Encontra o caminho um corpo que já não aguenta mais. Lágrimas. E o espírito de Deus volta a se mover sobre a face das águas..
Eric D'Ávila

06/02/2011

Névoa rósea

A estrada é um fio que surge do beijo de duas montanhas, vestidas com o capuz da noite. Alguma estrela se desprende e vem pousar de vagalume, o carro para, entre a escuridão árida dos cajueiros. Me sento na carroceria e contemplo a estrada vazando para o centro do meu campo de visão. A poeira vira uma névoa rósea fluindo centrípeta para a luz do farol. Há um carro depois de nós. Sinto então um contentamento de ser uma promessa de imagem semi-apagada na maturidade dessas crianças de hoje. Lembrança leve de uma tarde, compartilhando as alegrias da música.
Eric D'Ávila
Na aldeia Umutina uma das coisas que me pegaram foram os olhos que sorriam, e a leveza e o respeito que havia com o jeito de tratar as coisas. Dentro da aldeia me voltaram muitos tempos que se perdem numa metrópole. Tempo de observar, tempo de respirar, tempo de memória, tempo nuvem...

Estava saindo de um dia de oficinas e peguei uma criança de cavalinho. Pra que né? Logo havia várias criaças em volta que queriam andar de cavalinho, e eu tentava mudar de assunto, propor outra brincadeira, mas sempre voltava ao mesmo ponto e já vinha umas três crinaças agarradas no meu pescoço e outras me puxando pra brincar. Eu não fazia idéia de como iria sair dessa. Até que reparei que eu estava fazendo o tempo todo a voz do Tilápia (palhaço que faço na apresentação)e então comecei a falar com minha voz normal, um pouco mas sério :P, e disse: - Agora chega. A brincadeira já acabou. Foi legal mas já deu.

Na mesma hora a criançada parou, uns deram um muxoxo de "pena que acabou",se despediram e sairam em bando pra brincar em outro lugar.

Fiquei impressionado como elas entenderam o momento de brincadeira pelo jogo da voz que eu estava propondo, e também como elas entenderam o momento de parar sem que eu precisasse recorrer a qualquer tipo de bronca sem sentido. Acho que se fosse em São Paulo eu já teria sido vítima de vários montinhos, pancadas e só ia sair dessa correndo pra um algum lugar seguro!

Pedro Bacellar
(post sobre a Aldeia Umutina)

03/02/2011

Sivirina

Já amanhece com a vassoura na mão. Quinze filhos, três barrigas de dois. Com duas baixas na iáscara, mora perto da baixa da égua. Se ri do seu nome que parece nome de passarinho, mas aprendeu a amar seu nome porque: " Se mamãe gostou, eu gosto". Noivou três vezes e o último noivo é quem a acompanha, taciturno, pela vida. Ela esquece o nome dos filhos, esquece de botar fogo no cuscuz e ri. Ri gostoso até entortar o corpinho.
Eric D'Ávila

02/02/2011

Sibricu

Todos eram estranhos e rio grandenses do norte no taxi rumo a Serra do mel e havia uma viúva entre eles. Eu morria com o pior calor e quando lancei o olhar moribundo pela janela, vi na beira da estrada um jumento morto com uma coja de urubus aterrissando em seu corpo. Aquela imagem não me tirou da apatia até uma nova passageira entrar no taxi. Contrariado tive que comprimir meu corpo contra o corpo da viúva para que a nova estranha se acomodasse. Foi então que a estranha me resgatou algum frescor humano quando disse: A prata, bichinho! Era que as minhas moedas haviam se esparramado no banco detrás. Recolhi todas, me desprendendo lentamente de meu mal humor, quando a viúva configurou de vez uma situação muito cômica para mim: Pediu ao motorista parar pois ela queria comprar um frango, pois desde que seu marido morrera ela não tinha ânimo para cozinhar. Pronto. Bem como eles falam aqui: Então pronto! Agora ela rescendearia aquele bafo quente com melancolias e cheiro de frango assado. Ela estava muito triste mas me provocou um riso interno ao lembrar que seu marido era o único da casa que comia o "Sibricu" do frango e eu fiquei imaginando que, assim como os bêbados jogam um trago para os seus santos, Ela deveria sempre consagrar todos os Sibricus In memoriam de seu amado...
Eric D'Ávila

antes da Aldeia Umutina

Em outros portos tratados como brancos ou também não-índios. Para se aproximar, mil couraças quebrar. Tenso. Longe das aldeias, sem permissão dos caciques, era difícil estabelecer relações.
Sem sorrisos, sem boas-vindas. Até o dia da apresentação.Depois de Tilápia e dos marujos nada mais foi assim. No almoço, dia seguinte, assim que sentei, um deles cantou a música do espetáculo, que já havia aprendido. Dali pra frente eram muitos sorrisos e risadas, relembrando os momentos da peça.
É incrível como a arte pode conquistar e modificar estruturas já prontas.


Convite para aldeia UMUTINA. Vamos!!!!

Natalia siufi, da lan house de Serra do Mel, 18h08.

26/01/2011

Eu já dormi em Igreja, Seringal, em quilombo, em posto de saúde de aldeia indígena e agora durmo em um circo, ou tento dormir. Aqui peguei um etafon, que amortece saltos, e no meio do picadeiro tentei saltar no sonho. Mas a imagem noturna daquela abóboda engraçada me impediu de pegar no sono. Aquele riso do baço me deixou alvoroçado com a imaginação de que ali, sob meu corpo cansado havia pegadas de elefantes e cada vez mais foi ficando impossível de enjaular o meu sono, pois parece que estou tentando dormir na rua, sob um pequeno toldinho. Vieram os palhaços Butuca, Porvin e Pernilongo. Porvin ruflou seu tamborete na minha orelha esquerda. Pernilongo tocou suas longas notas de trumpete na minha orelha direita, enquanto Butuca sapateou arlequinal na minha testa..
Eric D'Ávila

25/01/2011

Febre

Há um flamboyant em Natal, cidade quase em Portugal. O núcleo da flor atravessou a minha miragem como uma flecha vermelha. Naufraguei em febre e o vento quente me assoprou para o alto da torre. De lá tive a visão nítida de um cavalo morto sobre uma areia muito branca, com metade de seu corpo submerso em uma poça de água muito clara, refletida pelo céu. Meteoros se desprenderam de outros mundos distantes daquele, e ao cruzar o invólucro da terra, se transformaram em chuva doce antes mesmo de tocar naquele espelho da morte em que se encontrava o cavalo. Os pingos desceram com a velocidade das pedras e se transformaram em vagalumes para que não se chocassem com a superfície lacustre. Os vagalumes voaram em meia redoma, animando anima naquele animal que re-linchou, vívido e absoluto.
Eric DÁvila

24/01/2011

Pedro estava com um pau com uns peixes.
A cambada de peixes maior R$10,00 e a menor R$5,00.
O peixe, mandarim.
O Pedro é irmão da Fernanda, a garota do rostinho de traços indígenas que sempre acompanhava o grupo.
Quem pesca os peixes é a mãe deles, Nazaré.
E ela pesca no rio em frente a Casa Branca.
Dialoguei com ele durante a oficina, da qual não poderia participar pois iria vender os peixes..
Pouco tempo depois eles retornaram, sem peixes, tinham vendido tudo. (Xapuri/AC)

Em Cuiabá/MT, cremosinho, piché e a recepção do Grupo Tibanaré.
Depois seguiu-se Chapada dos Guimarães, cachoeiras e o pôr do sol mais lindo da minha vida, que até fiquei emocionada, comunguei esse momento com Natália e Gabi, cantarolando,lindo!
Mais adiante, duas áreas, dois povos...
O povo quilombola de Mata-cavalo e o povo indígena da aldeia de Umutina.
Duas experiências diferentes, riquissimas e dois povos lindos e lutadores.
Cheios de riquezas culturais.
E tudo isso em Mato Grosso!

Agora em Natal, em Genipabu.
Praia, mar, dunas, buggys,dromedários...
Estamos em Rio Grande do Norte!
E seguem-se novas experiências.
Cada dia um sabor!!!
Jussara Vicente

21/01/2011

postagem de Rio Branco atrasada

Taquaras, tabocas, urtigas, tashis (formiga braba vermelha), aranhas, mosquitos, pernilongos, borboletas com vários desenhos nas asas, mosquitos esquisitos, cabas (um tipo de vespa) igarapés e riachos no meio do caminho. Tendo que atravessar pisando em troncos de madeira podre caídos, comendo uricuri, vendo um urubu-rei. (passando também por capim, capoeira e fazenda no meio do percurso).
Cheirando rapé de verdade, rapé que o índio usa, e vomitando tudo num trabalho de limpeza, suando frio (desde a Ayahusca). Experimentando pela primeira vez. Foi tudo muito bom...
Sinto esse processo de vomito e tontura, limpando o corpo das toxinas dos dias “civilizados”. Expurgando as doses de desconfiança inoculadas pela “civilização”...ou algo assim. Estava inerte antes de vomitar.
5h de caminhada roots na mata. Trilhas abertas e fechadas. Nunca me senti tão vivo.

“Meu povo acorda, ficar dormindo é poeira na estrada, sou da floresta e também do mar, a lua é grande, encante Iemanjá”

Pedro Bacellar
Acabamos de apresentar na cidade de Barra dos Bugres. Voltamos hoje da aldeia Umutina, lugar onde fui muito feliz: comi Pacu, fiz crianças indígenas rirem, tomei banhos de rio, comi mandioca e milho e tomei a Xixa. "Tudo vale a pena, pois a direção do meu ollhar é o seu dedo apontado"
Eric D'Ávila